Natal na Itália. Ninguém fala inglês. Meu cachorro de quatorze anos está sangrando.
Estou ao telefone tentando parecer profissional em um idioma que mal conheço. O veterinário está aberto. O livro de frases é inútil. Não memorizei “meu border collie geriátrico tem uma ITU”. Memorizei “onde fica o metrô”.
Jess não é mais jovem. Nem eu, na verdade, embora o número não tenha acompanhado o sentimento. Saímos da Escócia quatro semanas antes. Esta é a primeira falha no plano. O primeiro sinal de que a vida fácil acabou.
Ainda me lembro de papai dizendo “tudo bem” quando eu o importunava pedindo um cachorrinho. Já se passaram sete anos desde que Glen, nosso cachorro anterior, morreu. Minha mãe e eu os tínhamos desgastado. A culpa é um motivador poderoso quando você tem dezesseis anos e está obcecado. Trouxemos Jess para casa. Um cão pastor desalinhado que precisava de uma família. Encontramos o nosso.
Ela estava em todo lugar. Movimentos universitários. Graduação. A proposta. O corredor do casamento onde ela se pavoneava como a florista mais fofa já concebida. Ela estava lá pelas coisas boas. As coisas barulhentas. Quando decidimos sair definitivamente do país, a decisão não foi debatida. Jess vem ou ficamos.
As pessoas não acreditam que ela tenha quatorze anos. Ela ainda persegue Mara, sua irmã de quatro anos, pelos centros das cidades europeias com o entusiasmo de uma criança de um ano. Ela corre. Ela late. Ela existe em voz alta.
Visamos primeiro Paris. Depois Turim. Depois o caos.
Seis meses depois? Cinco países. Bondes, trens, teleféricos, gôndolas. Ela comia queijo nos mercados de Roma. Ela flutuou pelos canais de Veneza. Ela fez amigos que gritavam com ela em línguas que ela não conseguia compreender. A aventura parecia boa no Instagram. O rabo abanando no Coliseu. A foto ensolarada à beira do Sena.
Mas por trás do feed? A realidade é mais difícil.
Aquele dia de Natal me ensinou algo. O veterinário foi gentil. Os antibióticos funcionaram. Jess sobreviveu. A Itália é surpreendentemente amiga dos cães, ao contrário de alguns outros lugares. Mas o alívio não foi apenas médico. Foi a constatação de quão frágil tudo é.
Eu tinha feito as malas para o desastre. Os medicamentos encheram metade da minha mala. Suplementos. Dois de seus brinquedos barulhentos favoritos, caso as lojas italianas estivessem vazias. Eu ensaiei mentalmente o pior. Ela não conseguiria voltar para a Escócia. Ela ficaria aqui. Achei que estava preparado para o luto. Eu não estava preparado para a logística.
Viajar com um animal é cansativo. Você carrega o kit de sobrevivência nas costas enquanto pula de ônibus em cidades que não conhece. As fotos não mostram os dias em que cancelamos os planos porque ela estava muito cansada. Muito quente. Muito feito. Queríamos ver os pontos turísticos. Ela só queria tirar uma soneca na sombra.
A idade dela dita meu ritmo. Não é meu ego.
Parei de tentar conquistar a Europa em um dia. Parei de correr. Sentamo-nos agora. Mais longo. Mais devagar. Eu a vejo beber seu Aperol (ou melhor, me vejo beber o meu enquanto ela cochila) em seu restaurante italiano favorito. Sento-me à beira de um rio na Bósnia, virando as páginas de um livro enquanto ela as inspeciona com o nariz molhado. Não escalamos todas as montanhas. Pegamos os trens caros em vez de voar porque as pernas dela nos agradecem mais tarde.
Está melhor? Sim. Mas é mais lento.
Se eu não tivesse um cachorro de quatorze anos, seria diferente. Eu estaria mais ocupado. Mais difícil. Posso chegar ao cume de picos que atualmente admiro à distância. Eu não me importaria se um dia parecesse “desperdiçado”. Agora, esses dias tranquilos parecem vitais. Eles são a viagem.
Vou completar trinta anos em breve. A adolescente que implorava por um animal de estimação se foi. A noiva com flores na coleira do cachorro se foi. Jess não é mais a força explosiva que corre mais rápido do que as pernas humanas podem acompanhar. Ela está mais suave agora. Mais devagar. Precioso porque está acabando.
Estamos em um novo capítulo. Provavelmente o último. Não estou pronto para enfrentar um mundo sem a voz dela, sem o peso dela no sofá. Mas não posso mantê-la para sempre. Ninguém sabe.
Meu objetivo não é mais a longevidade. É felicidade. Contentamento. Uma tigela cheia de água. Um bom lugar ao sol.
Então passo meus dias em cafeterias. Observando a rua. Esperando que ela abrisse os olhos. Essas horas tranquilas e monótonas parecem mais significativas do que qualquer ponto de referência que marcamos na lista. Eu quero lembrar disso. Não os monumentos. Os momentos.
Jess está aqui. Por agora. Tenho muita sorte de estar ao lado dela. 🐕🍂


































